Corre corre corre! Corre contra o tempo que já é quase meia noite!

Será que há uma entrada para o país das maravilhas em Lisboa? Aposto que é no bairro alto. Não espera, isso é outro Rabbit Hole…

Caramba, onde é que eu ia? Devia apanhar um taxi para casa. Ainda há taxis ou só há ubers? Ou cabify.

Mas porque ia para casa? Não me lembro… Lembro-me de gorilas que me perseguiam. Estava num vale e tive de sair de lá disparado. Corri pela floresta e ultrapassei uma colina, cheguei a uma clareira e juro que estava cheia de fadas.

Lindas, todas, pareciam anjos. Sentei-me com elas à conversa e quis saber tudo. O que as trazia ali, quais eram os segredos da floresta, onde estavam as coisas mais interessantes de se ver? “Tens namorado?”

Tinha. Que raio de fada se apaixona por um troll? O gajo tinha braços maiores do que a minha perna. Comecei a afastar-me devagarinho até sair da clareira e esbarrar com um elfo.

O tipo até tinha boa pinta e não pareceu violento, também não pareceu grande amigo. Falou comigo mas não percebi nada do que disse. Nunca aprendi élfico na escola, devia ter sido uma opcional qualquer que eu não escolhi.

Os hobbits é que eram fixes, um deles deu-me uma passa e tudo. Senti-me logo melhor e esqueci a confusão com os gorilas. Os gorillas não importam para nada neste mundo!

Há aqui tantas coisas giras, as montanhas são tão coloridas que quase falam. E têm todas quadradinhos, onde há desenhos, que espera, os desenhos mexem às vezes. E se olharmos mais de perto… então? Ficou escuro? Não há mais filme?

Além das montanhas, este vale está cheio de pirilampos. Voam baixinho ou deixam-se ficar a pairar à altura do peito. Umas vezes mais acima, outras mais abaixo.

É giro quando um está mais parado podemos aproximar-nos e ver as cores a brilhar. Ora azul, ora verde, ora branco. Como é que eles mudam de cor? Pensava que eram sempre da mesma cor.

Tenho de procurar uma loja, não me sinto bem e se comer qualquer coisa isto melhora de certeza. Vamos lá entrar nesta aqui. Tem demasiada luz… mas há um balcão ali à frente. Tantas luzes, já não suporto as cores. Magoam os olhos e ferem a vista.

Espera, vou por aqui onde há pessoas. Se há fila deve ser para pagar. Está cada vez mais escuro aqui, em que raio de loja estou?

Já é meia noite? Como é que eu vim parar aqui? Estou de olhos fechados? Já os posso abrir?

Não vejo nada, há demasiada luz, que se passa aqui? Tenho a cabeça a rebentar. Há ali vozes, o que é que estão a dizer? Não consigo abrir os olhos com esta luz.

— “Este aqui foi encontrado ontem à noite caído num bar da bica.” — “Que lhe aconteceu?” — “Deus sabe. Deve ter tomado umas drogas lixadas que lhe arruinaram o juízo.”

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