Eu leio pouco, mas ainda assim há ocasiões em que me lembro de bocadinhos de literatura que fazem todo o sentido.

Hoje foi o Poema em Linha Reta de Álvaro de Campos, aliás, tem sido esse há já uns tempos que me tem ocorrido.

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada, todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Quando é que foi a última vez que alguém vos confessou os seus erros e as suas falhas? Pois.

Foi quando li isto pela primeira vez que me ocorreu olhar para quem me rodeava e tentar imaginar que tropeções e que derrotas as pessoas estariam a esconder.

Mas há outros bocadinhos que vou guardando que são mais interessantes. Oscar Wilde: Consigo resistir a tudo, menos à tentação. A candura e sinceridade são coisas tão escassas hoje em dia. E vejo toda uma construção da realidade digital …

Vamos por partes, como diria o Jack. A realidade é toda a mesma, seja online ou offline, digital ou analógica. Só que nas coisas analógicas não temos como fazer ctrl-z. O que acontece é um facto e todos os factos têm o seu lugar marcado no tempo.

A construção digital surge quando escolhemos que parte da nossa vida é partilhada online. Todos fazemos isso, não mintam, não finjam.

Quantas vezes não fiz uma receita qualquer em casa que correu tão mal, mas tão mal que não teve direito a Instagram. Quantas vezes já fotografei os ingredientes como se estivesse a preparar algo fantástico e no final era só um Wok mal amanhado.

Começo a pensar que nos levamos demasiado a sério. Que temos um medo de errar, de ser menos perfeitos aos olhos de figuras mais ou menos anónimas que fazem um ou dois cliques só para nos dar graxa.

Se calhar estou a ser um bocadinho cínico, é verdade. Mas quantas vezes não passámos horas a escolher a melhor foto de perfil? (Já agora, eu estou com o pior corte de cabelo de sempre para esta altura da história.)

Não discordo que as pessoas se esforcem para parecer o seu melhor, para se sentirem bem. De todo. Discordo sim que se levem demasiado a sério e que se foquem no concurso de popularidade em que transformámos a internet.

E às vezes, até são as coisas menos sérias e menos preocupadas com o que fica bem que se tornam interessantes.

“AH SIM! É mesmo isto, é este texto cheio de eloquência e bom senso que vai começar a mudar o mundo dos que me rodeiam e ajudar-me a ser mais sincero todos!”

O Tanas.

Sei lá eu se isto não é uma programação genética qualquer a que não conseguimos fugir. Ou se sendo sendo alguma forma de enculturação poderá algum dia ser invertida.

O importante é termos os olhos na linha de água e garantirmos que não nos afogamos nestes comportamentos e nestes desejos de uma perfeição digital.

E já agora confesso-vos que este exercício diário me está a cansar e precisa de um novo twist. De uma barreira um bocadinho mais alta. Porque nas últimas coisas que escrevi entrei sempre numa espiral de introspecção e pseudo filosofia. (Olá Joana Sousa!)

Vamos ver, amanhã é outro dia e tentamos algo diferente. 541 palavras.