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— Como está e como se sente?
— Bem, parece-me que estou bem.
— Qual é a última coisa de que se lembra?

Houve um momento de silêncio e uma troca de olhares enquanto o paciente se tentava sentar na cama, sem força nos braços ou em qualquer outra parte do corpo.

— Calma, ainda não se pode mexer, é natural. Esteve muito tempo a dormir, sabe?
— Não me lembro de nada…
— Nem do seu nome?
— Nada…

Ajudou-o a sentar-se na cama e assegurou-lhe que tudo ia ficar bem, tinham o nome nos registos e rapidamente iam contactar a família.

Dirigiu-se de novo aos escritórios e informou um dos funcionários que o paciente da cama 1337 tinha acordado, era preciso contactar a família porque não se lembrava de nada e pedir a um médico que fosse lá.

— Já sei, esse é um daqueles que veio transferido do antigo hospital há uns dias. Estava em coma, certo?

Respondeu-lhe que sim, e voltou ao trabalho. O colega que ficou para trás vasculhou os registos ainda em papel e encontrou uma pasta de papel antigo, recheada com antigos formulários e uma foto a preto e branco presa com um clip.

Não havia qualquer indicação de familiares a contactar e ao contrário de todos os outros processos este não tinha ainda a versão digital.

Pegou no telefone e ligou para hospital antigo. Nada. Toda a informação estava ali naquelas três folhas.

Veterano de guerra, 95 anos, sem parentes vivos.

— Doutor! Doutor! Espere aí. Um dos pacientes acordou de um coma, aqui está a ficha. Está amnésico e não tem parentes, vai ser um caso díficil …
— Pois vai, pois vai… bem, vou já falar com ele. Obrigado.

Seguiu direto para o quarto 1337, quando entrou viu três camas separadas por biombos e três pacientes entre os 20 e os 40 anos. Estranhou, olhou de novo para o processo, confirmou o número da cama e sentou-se ao lado dele.

— Foi o senhor que acordou há pouco? Do que se lembra?
— Fui, mas, já disse, não me lembro de nada.
— Certo, compreendo, mas é possível que a memória volte lentamente. Temos é aqui um pequeno problema a resolver. Não quero alarmá-lo mas o registo da sua entrada está… incompleto. A enfermeira já lhe trouxe comida? Temos de ir com calma mas se tiver fome diga por favor. Chame.
— Chamo?
— Sim, carregue na campainha para chamar.

Conversaram mais um pouco e ao verificar que o paciente estava calmo o médico voltou para os escritórios, para o homem que lhe tinha dado o processo.

— Passa-se alguma coisa, trocaram os processos de certeza. O homem que eu encontrei tem no máximo 30 anos, não tem de longe 95.

Alguém teria feito confusão, trocado as fichas, baralhado os nomes.

Para o homem que tinha acordado do coma, esta história processou-se de uma forma diferente.

Deu por si rodeado por uma sala que lhe era estranho, com artefactos de uma estética que não tinha alguma vez imaginado e aparelhos que funcionavam como que por magia.

Na parede, uma televisão mostrava imagens a cores e com uma claridade quase superior à realidade. Os anúncios eram a produtos que prometiam pequenos milagres, desde limpar o acne a preparar refeições de luxo em poucos minutos.

Ouviu música a tocar, não lhe podia chamar blues ou jazz mas algo lhe era familiar e lhe agradava.

Uma enfermeira entrou no quarto e estranhou ele estar acordado. Trazia uma placa de vidro que pousou na cama enquanto o ajudava a sentar-se. Estava sem forças, ligado a soro e sentia oa estômago vazio.

Perguntou-lhe do que se lembrava e isso resultou num flash de memórias e terminou com a recordação estranhamente vívida. O jogo de xadrez naquele espaço estranho e com aquele homem que se recusava a dizer o próprio nome. Confrontado com aquele espaço estranho e recordações do que lhe parecia ser um tempo longínquo, calou-se, mentiu.

— Não me lembro de nada…
— Nem do seu nome?
— Nada…


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