3 min de leitura

Pensamos sempre que as histórias se passaram há muito tempo, porque nos contaram a história a começar com “Era uma vez”.

E se o tempo não for linear? E se na nossa mente colectiva algumas histórias existem porque ainda vão acontecer?

Foi o que aconteceu com a Branca de Neve. Eu conto-vos o que aconteceu.

Nasceu em 1979 e rapidamente foi baptizada de Bianca Neves, e em pinceladas toscas a história foi mesmo como já sabemos. A mãe faleceu quando ela era muito nova e o pai casou-se com uma bruxa sem saber.

Passava o tempo a tirar selfies e a perguntar no facebook se estava gira, a contar os likes e a somar as partilhas. Comprava tudo na La Redoute, delirou quando descobriu a Amazon e ficou viciada no Instagram à primeira selfie. Foi dos filtros. #EspelhoMeu

A Bianca sabia muito bem que a madrasta não gostava dela. E não havia disfarce nenhum. Houve várias sugestões de que fosse em Erasmus, para a Rússia.

Quando não gostam de nós o melhor mesmo é pegar nas malas e seguir viagem. Foi isso que ela fez eventualmente, na esperança de se livrar de vez daquele ambiente. Saiu do Porto e rumou a Lisboa, onde alugou um quarto num T7 com mais uns rapazes.

Eram miúdos novos, estavam no primeiro ano de faculdade e já tinham entrado para a Tuna por saberem cantar. Eram de cursos diferentes, mas estavam todos a tirar o mesmo curso fotografia.

Um deles comentou uma vez, “isto é como trabalhar numa mina. Passamos o tempo todo a ver a luz ao fundo do túnel que é a lente da máquina”.

A vida até lhes corria bem. Não fosse a Madrasta dar por si viúva e decidir que tinha de ficar com a herança por inteiro. Certificou-se que a Bianca não sabia de nada e fez a cabeça do amante de que ficariam ricos se ele fosse a Lisboa e “acontecesse um acidente”. Deixou-se levar. Não era uma má pessoa, mas a outra Bruxa enfeitiçou-o de tal maneira que ele não conseguia resistir.

Foi a Lisboa, roubou um carro e trocou-lhe as matrículas com as do vizinho. Entre nervos e mãos a tremer, conduziu até ao T7 e atropelou a Bianca à vista dos 7 colegas de casa que regressavam do “trabalho na mina”.

Partiram rapidamente à caça do pulha. Um deles, por impulso, puxa da máquina e tira 3 ou 4 fotos do carro em fuga. Mas o mal estava feito.

A Bianca foi socorrida pelo INEM mas chegou inconsciente ao hospital. Os seus 7 amigos não arredavam pé. Eram família e a família não se abandona. Os médicos comentavam que ninguém regressava daquele estado de coma. Que podiam ir para casa e descansar.

Cederam ao final do terceiro dia. Regressaram. A Bianca ali ficou, praticamente sem vida.

Um dos enfermeiros, vendo a troupe a afastar-se, aproximou-se e sentou-se ao seu lado a observar. Estavam no fim do turno e o sol já mal se via. Se calhar foi por isso que não resistiu e lhe beijou os lábios, de forma muito leve.

Foi nesse instante que a Bianca acordou confusa, sem saber bem onde estava e quem era aquele rapaz iluminado pelas luzes fortes naquela sala tão branca.

E sim, foi aqui que eles viveram felizes para sempre. A Bianca não se incomodou com este assédio sexual tão cortês; os seu 7 amigos rejubilaram e foram à Polícia Judiciária apresentar provas do atropelamento e fuga que culminou com a prisão dos dois cúmplices.

Etiquetas: writing

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um exercício, uma tentativa de criatividade

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