3 min de leitura

Odeio tabaco. Odeio o cheiro e a pose de superioridade deste gajo. E a falta de maneiras.

Pega nos amendoim com a mão cheia, enfia-os na boca como se fosse morder uma laranja. Juro que as cartas dele já devem estar cheias de gordura.

E a conversa dele, que asco. Empresário de alta sociedade, diria ele para se descrever. Burguês intelectualóide, diríamos nós. E por azares do destino aqui estou eu, a jogar às cartas com eles. Quanto é que temos em jogo? Caramba perdi as contas.

Ainda há pouco acho que estavam 500 euro na mesa, mas isso foi à quanto tempo? E porra, porque é que me meto nestas coisas? Eu não sei contar cartas e sinceramente percebo pouco deste jogo. Memorizei as sequências de cartas por ordem de importância e pouco mais.

Eu não sei jogar às cartas porra. Quanto muito consigo ler as pessoas. Sei que ele está cheio de bazófia, e tanto pode ser porque tem uma mão fantástica ou porque quer que eu desista. Sinto que ele tem a pinta de rufia, de vencer nos negócios por intimidar o adversário.

Noutras vezes, em que ele ganhou, até lhe topei alguns tiques nervosos. Brinca com o anel, passa o polegar pela ponta das unhas, muda um bocadinho a postura para ficar mais direito.

E se fosse só ele, mas sinto que todo este ambiente é hostil. Com as luzes por metade, pouca ventilação e todo um ardor nos olhos só de aqui estar. É tudo menos o meu ambiente preferido.

Há um bar atrás de nós, e de lá têm estado a sair copos de whisky e alguns cocktails mais masculinos. Vodkas, rum, talvez uma ou outra tequila. E estar aqui sem estar a beber sem parar, é mostrar fraqueza. Por isso é que em cada cigarro ele pede também mais um copo de whisky. Nada menos do que 12 anos, faz parte de toda a falta de charme que ele tem estado a ostentar.

Tirem-me daqui, porra. Mais cartas, vamos ver o que me saiu da rifa.

Por sorte conheço o bartender e estamos combinados. Eu peço sempre um gin tónico e ele serve-me sempre uma água tónica. Já basta não querer estar aqui, ter de estar aqui e a beber para ficar com os sentidos toldados era simplesmente estúpido.

Ele olhou para o relógio… Quer ir-se embora e estava a ver se tinha tempo para mais esta ronda? Para mim já é tarde, mas ele tem ar de quem ficaria aqui até o sol nascer.

Vai a jogo, deve ter um par e acha que ainda sai daqui com mais algum. Os outros estão a ficar de fora, sobramos 3. Eu vou a jogo, estão quase mil euros na mesa e o dinheiro faz-me falta.

As cartas vão saindo e ele continua com um sorriso enorme, atira as fichas como se fossem moedas para um poço.

É a minha vez. Há um par na mesa e eu tenho o 10 de copas e o 10 de paus. Falta sair uma carta e eu sinto que o coração me quer sair do peito. Raios, raios, raios.

Ele mexeu no anel outra vez, está confiante. Merda. Tudo depende desta última carta. Com o 10 de ouros levo daqui a mesa, qualquer outra e é o meu fim. Que seja. “All in.”

O homem estarreceu. Juro que lhe vi a cara ficar lívida.

Mais uma carta… SIM! 10 de Ouros! Atirou com as cartas e praguejou antes de começar a arrumar a trouxa. Fez dois pares e achava que com isso ganhava. Adoro o ar de raiva com que ele ficou. Estes burgueses, que se dizem muito modernos, não suportam ser derrotados por uma mulher. 626 palavras.


Às Páginas Tantas

um exercício, uma tentativa de criatividade

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